O Anunciador da Paz
(27/01/1990)
[Parte 1]

      Quem passa pela avenida Heitor Penteado, zona oeste de São Paulo, certamente não deixa de notar uma bela casa de esquina. Ali, próximo à altíssima torre da TVS de São Paulo, rivalizam-se cerca de uma dúzia de antenas dos mais variados padrões: antenas de VHF, rastreadoras de satélite, parabólicas. A primeira idéia que vem à cabeça é a de que ali vive certamente um fanático rádio-amador, que passa suas noites entretido com sua parafernália de recepção, conversando com seus colegas de todo o mundo; porém, esse fanático rádio-amador, que se chama Júnior Torres de Castro, vai muito além. Como se não bastasse ser o único rádio-amador brasileiro contactado regularmente pela NASA para serviços de monitoração e rastreamento, Torres de Castro agora é o unico cidadão no mundo proprietário de um satélite em órbita de nosso planeta. O equipamento foi lançado no dia 21 de janeiro deste ano, da base de Kourou, na Guiana Francesa, por um foguete Ariane IV.

      Há cerca de 32 anos, Torres de Castro, que é engenheiro eletrôníco, físico e geólogo, captou os sinais de telemetria do "Sputnik" soviétíco, transmitidos na forma de "bips"; perguntou-se então o porquê de um artefato de tamanha importância transmitir mensagens cifradas, acessíveis a um numero tão restrito de especialistas. Seria ótimo que esse dispositivo falasse a linguagem dos homens, e pudesse ser entendido até mesmo por uma criança.

      Rapidamente, Torres de Castro percebeu que isso seria um sonho quase que inatingível; os interesses que envolvem a transmissão de informações via satélite não são sempre muito claros e acessíveis. O rádio-amador, engenheiro e professor universitário dedicou-se, desde então, à realização deste sonho com seus próprios recursos. Percorreu os principais centros de ciência e tecnologia no mundo, participando de palestras e travando conhecimento com especialistas competentes.

      Enquanto isso, Torres de Cantro realizava façanhas com seu quase laboratório particular de telecomunicações; em uma das viagens do "Space Shuttie", a NASA perdeu contato com a nave devido a uma avaria no sistema de refrigeração. O ônibus espacial deveria ficar então com seu compartimento de carga apontado para o Sol, o que fazia com que as comunicações entre a nave e a agência espacial se tornassem impossíveis. Torres de Castro então intermediou o "link", funcionando como uma estação repetidora. No dia seguinte, os jornais americanos estampavam: "Rádio-amador brasileiro salva missão do onibus espacial";

      Torres de Castro não disfarça um certo orgulho ao confidenciar: "Fiquei muito vermelho quando li aquelas manchetes".
próxima
ÁUDIO E VÍDEO   |   ARTIGOS   |   BLOG   |   SOBRE   |   CONTATO

© 2019 Claudio Malagrino
Direitos Reservados
www.malagrino.com.br