As ondas internacionais
(janeiro/1994)
[Parte 1]

      Tem sido tema de preocupação e motivo de análises e pronunciamentos um progressivo desinteresse por parte do ouvinte em relaçao às transmissões em onda curta. Devido aos altos custos requeridos para uma pesquisa de campo nos moldes das emissoras locais, as rádios internacionais têm como único termômetro de audiência a sua correspondência, e ao que parece é esta que começa a demonstrar sinais de cansaço. Ouvintes que escrevem regularmente a uma rádio internacional são escutas fiéis, e se esses abandonam o barco, tudo indica que algumas emissões estão às moscas. O que está ocorrendo com o rádio internacional, na verdade?

      Faça uma pesquisa: quem, além é claro de seu círculo de "amizade DXista", possui e ouve um receptor de onda curta? Lembro-me ate hoje de ter conhecido apenas duas pessoas que alegavam manter correspondência com rádios internacionais, e a maioria das pessoas com quem converso sobre Onda Curta acredita que uma emissora da Alemanha deve transmitir em alemão, e uma emissora do Japão, japonês. Não há uma tradição de se ouvir onda curta em nosso país. Além da absoluta falta de receptores para esta faixa de onda em nosso mercado, existe um certo comodismo, até certo ponto justificado, em relação às próprias deficiências de transmissão. Antenas externas, ruídos incessantes, interferência, ouvidos treinados, paciência... A onda curta não é "sedutora" como o FM estéreo, ou o AM de 200 kW. Portanto, o público atual de SW, em sua maioria, é de "hobbystas". Pessoas que têm na escuta de rádio seu passatempo, sua diversão, e estão dispostas a realizar o que estiver a seu alcance para melhor receber os sinais de sua emissora favorita. Fica a pergunta: por quanto tempo ainda as grandes emissoras estarão dispostas a investir mais e mais recursos para atingir um publico tão restrito?

      Fica dada vez mais difícil considerar o rádio internacional como um meio de comunicação de massa. Ele acaba por adquirir mais e mais características de "narrowcast", ou de transmissão dirigida. A presença constante de programas dirigidos ao "DXer" é uma prova de que a direção das emissoras já começa a reconhecer que não mais é capaz de atingir um publico massivo. É claro que não é apenas o DXista que ainda ouve SW, mas também profissionais com atividades ligadas à política ou ao comércio internacional, jornalistas, funcionários ligados aos altos escalões governamentais. O "Editorial" da Voz da América, além de assegurar um espaço no qual o governo dos EUA, que dá suporte à emissora, tenha sua opinião declarada, dirige-se a todos aqueles interessados em ter de viva voz o ponto de vista e o direcionamento das políticas externas do maior país do ocidente. Há quem diga que as emissoras clandestinas na verdade têm como seu "público-alvo" os serviços de monitoramento e os governos dos países declarados como adversários.

      O ouvinte de SW encontra, em seus passeios pelo "dial", um espectro incrivelmente diversificado de culturas, opiniões, línguas e informações. A esse ouvinte, assegura-se o acesso imediato a centenas de fontes de notícias, sem nenhum custo. Exige-se apenas capacidade de discernimento, e conhecimento de algumas poucas línguas, para começar. A televisão caminha em direção à internacionalização da programação, mas ainda terá de percorrer uie longo caminho até atingir a simplicidade tecnológica alcançada pelo rádio internacional.
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