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Crategus prunifolia
Biólogos preferem os desenhos para retratar plantas

Na era da imagem digital, pesquisadores utilizam os recursos da pintura tradicional na produção de ilustrações.

(Agência Brasil)

      À primeira vista, os materiais para uma das disciplinas optativas do curso de Biologia da Universidade de Brasília (UnB) dão a impressão de que o aluno está no Departamento de Artes. São pincéis, penas, tela, tintas para aquarela e potes de nanquim. Além das plantas, que servem de modelos, esses são os instrumentos utilizados na disciplina "Ilustração Científica".

      Na era da fotografia digital, os desenhos ainda são os preferidos pelos especialistas na hora de retratar plantas, que serão usados tanto como referência para a identificação da espécie como para alertar sobre a preservação do meio ambiente. "Apesar de todos os recursos existentes hoje, nada substitui o olho humano", afirma o professor Marcos Antônio dos Santos Silva, doutor em Biologia Molecular, que além de coordenar o laboratório da especialidade também está à frente do Núcleo de Ilustração Científica da UnB.

      A ilustração se vale das técnicas de pintura, principalmente a aquarela, para reproduzir com a maior fidelidade possível orquídeas, plantas frutíferas ou cactos. Segundo Silva, a vantagem do desenho sobre a foto está na quantidade de informações que é possível agregar a ele. "Posso realçar determinados detalhes ou características, como também desenhar apenas o que interessa", aponta.

      Apesar de ser mais difundida na botânica, a técnica também é útil em medicina. O biólogo conta que uma das professoras do curso procurou sem sucesso um ilustrador que reproduzisse partes do interior do corpo humano sem sangue e gordura. A figura seria disponibilizada aos alunos para que eles visualizassem melhor regiões e órgãos sem elementos de ruído para o entendimento.

      Um dos painéis produzidos por Silva traz, por exemplo, além da imagem da planta, em cores, a representação dos aparelhos reprodutores feminino e masculino em grafite na parte inferior da tela. De acordo com ele, o detalhe tanto pode vir na inclusão de elementos do organismo, quanto na reprodução de vários ciclos do vegetal em apenas um desenho.

      A pintura também se torna mais interessante para a Biologia pela interação que permite com o modelo. "Desenhar proporciona um contato maior com o objeto e traz mais memória para quem a está exercitando", ressalta o professor. Embora máquinas e lentes não sejam as mais usadas para o retrato final de plantas, as duas técnicas trabalham juntas. "A flor do maracujá dura apenas um dia e as fotografias são úteis para guardar a anatomia da planta", diz Silva.

Flor de Pedra
(Pachyphytum longitolium)
      Uma bolsa conseguida por Silva na Fundação Botânica Margaret Mee, na Inglaterra, permitiu-lhe aprimorar a técnica. Uma das telas produzidas durante os estudos no exterior inclui a "Flor de Pedra" (Pachyphytum longitolium), no tamanho de 25x35cm. Já a "Rosa do Campo" (Kielmeyera rubriflora), que é um dos maiores painéis, na dimensão 60x40cm, foi pintado para concorrer à vaga no exterior.

      O desenho de uma planta começa com esboços de forma e cor, que aos poucos vão ganhando traços mais definidos com a observação da textura das folhas, nervuras, pétalas e disposição de outros elementos do objeto. A figura é concluída em cima de papel vegetal e passada então para a folha que levará a forma final do desenho em cores. O procedimento é necessário para que o artista evite rasuras, como as causadas por borracha.

      Com os contornos feitos, dá-se seqüência com o preenchimento com tinta das áreas em branco. A técnica de pintura mais empregada é a aquarela (pigmento que se torna tinta pela dissolução em água) por conta da suavidade e possibilidade de criação de cores e tonalidades, mediante a aplicação de várias camadas. "A tinta a óleo demora a secar. Até poder envernizar leva-se um ano. Já a tinta acrílica quando seca se torna insolúvel, impedindo trabalhar os degradês (tonalidade) como a aquarela", diz.

      Para que a tinta seja bem absorvida, os painéis são de papel que tem 50% de algodão. Segundo Silva, as características da folha e as propriedades da aquarela, que seca em poucos minutos, são melhores aproveitadas com pincel feito com o pêlo da cauda da marta, um animal semelhante a lontra. "O pêlo tem muitas escamas, e essa capilaridade retém muita água, o que evita que se tenha que parar muitas vezes para reabastecer o pincel. Se a tinta seca, já começa a diferenciar o desenho", explica.

      E embora talento seja importante para conseguir um bom desenho, o biólogo realça que a prática é a melhor recomendação para os iniciantes. "Fiz vários cursos para aprender técnicas de profundidade, formas e sombra", diz. O tempo para a conclusão do painel varia de pessoa para pessoa. O professor diz que com duas a três semanas é possível terminar uma figura em uma folha de 60x40cm.

Rosa do Campo
(Kielmeyera rubriflora)

Número de ilustradores científicos ainda é pequeno no Brasil

      A ilustração científica é uma atividade ainda pouco exercida no Brasil. Apenas uma universidade, a de Brasília (UnB), oferece a disciplina para os alunos de Biologia. As poucas instituições que também disponibilizam a matéria ensinam-na em cursos de extensão, ou seja, abertos ao público em geral.

      O professor Marcos Antônio Silva acredita que o motivo seja a baixa valorização do trabalho, a falta de tradição no país e o preconceito existente com a arte sobre papel. "Profissionalmente, devem existir no país vinte, trinta ilustradores no máximo", conta. Segundo o biólogo, entre os grupos que desenvolvem os desenhos estão a Família Demonte, de Petrópolis (RJ), e o Centro de Ilustração Botânica de Curitiba (PR).

      Uma das tentativas de estimular a atividade é feita pela Fundação Botânica Margaret Mee, em Londres, na Inglaterra, que oferece anualmente uma bolsa artística no Brasil. Silva foi o décimo terceiro profissional a estudar a arte com os recursos da instituição. O conhecimento adquirido o levou à direção do Núcleo de Ilustração da Universidade, criado em 1999. Entre os projetos do núcleo está a confecção de um calendário com espécies do cerrado, a fim de divulgar plantas e animais que compoem o bioma, como também reforçar a importância do ecossistema e de sua preservação. As telas já foram expostas duas vezes na própria universidade e uma na Reunião Anual da SBPC que se realizou em Brasília, em 2000.

      A história da ilustração científica no Brasil teve início com artistas franceses e austríacos, que vieram para o país com a família real portuguesa. "Os nomes mais importantes para serem citados seriam os de Taunay, Florence e Rugenda", aponta o professor. Taunay e Florence integraram a Expedição Langsdorff, que em 1821 percorreu os seis mil quilômetros que separam o Rio de Janeiro da foz do rio Tapajós, em Belém do Pará.


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